terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Dever Moral de Estudarmos Teologia

por
Pr. Ewerton Barcelos Tokashiki


Existe um senso de responsabilidade para estudarmos a teologia? Quem precisa de teologia? São perguntas que precisam ser respondidas.
Cada ser humano é um ser moral. Todos têm o dever de estudar e crer nos ensinos da Escritura Sagrada. John L. Dagg comenta que
as faculdades morais com as quais o homem foi dotado adaptam-no para um estado de sujeição ao governo moral. Nossas mentes foram constituídas de tal maneira que somos capazes de perceber uma certa qualidade moral nas ações, podendo nós aprová-las ou desaprová-las. A consciência de termos feito o que é direito oferece-nos um de nossos mais elevados prazeres; a angústia do remorso, por causa de alguma maldade praticada é tão intolerável como qualquer outro sofrimento ao qual o coração humano é susceptível. A nossa consciência exerce um certo governo moral, recompensando-nos ou castigando-nos pelas nossas ações, de acordo com o seu caráter moral. Grande parcela de nossa felicidade depende da aprovação daqueles com quem estamos associados. E assim, encontramos o governo moral tanto fora como dentro de nós mesmos; a cada ponto, em nossas relações com outros seres inteligentes, sentimos as restrições desse império moral. Onde se acham os limites do governo moral? Eles precisam ser tão extensos quanto as nossas relações com outros seres morais e tão duradouros como a nossa própria existência. (...) Na qualidade de seres religiosos, procuremos compreender as verdades da religião. Na qualidade de seres dotados de imortalidade, esforcemo-nos por nos familiarizar com a doutrina da qual depende a nossa felicidade eterna. Tenhamos o cuidado para não aceitar essa verdade com um frio entendimento, mas de tal maneira que o seu pode renovador jamais cesse de atuar em nossos corações. [1]

Não podemos ignorar que existe um disseminado sentimento negativo contra o estudo sistemático das Escrituras. Em alguns redutos evangélicos esta mentalidade é difundida e confundida com a verdadeira espiritualidade. Uma espiritualidade irracional, em que o Espírito Santo somente age onde a mente não atrapalha! Isto é um dos resultados pós-modernos do existencialismo, que é uma reação tardia ao racionalismo. Este “sentir” e “experimentar” tem se tornado o critério da verdade, que passa a ser subjetiva e não verificável. Assim, a sociedade pós-moderna tem seu cenário preparado por esta sutil mentalidade. Este sentimentalismo rejeita qualquer elaboração doutrinária que dependa da lógica, como se esta fosse algo puramente carnal, e não uma dádiva de Deus, para o correto raciocínio das matérias sagradas. John R.W. Stott escreveu que “crer é também pensar”.
O presbiteriano escocês James Orr, seguindo este mesmo raciocínio, há tempos observa que
todos devem estar cientes de que há nos dias de hoje um grande preconceito contra doutrina – ou, como é muitas vezes chamada – “dogma” – na religião; uma grande desconfiança e aversão ao pensamento claro e sistemático a respeito de coisas divinas. Os homens preferem, não se pode deixar de notar, viver em uma região de nebulosidade e indefinição com relação a esses assuntos. Querem que seu pensamento seja fluido e indefinido – algo que possa ser mudado com os tempos, e com as novas luzes que eles acham estarem constantemente aparecendo para iluminá-los, continuamente adquirindo novas formas e deixando o que é velho para trás.[2]

O preconceito contra a dogmática não acabou apesar de James Orr ter feito esta afirmação há um século atrás. A verdadeira espiritualidade é ensinada em alguns círculos evangélicos como se fosse algo despido de teologia. Teólogos recentes como Stanley J. Grenz e Roger E. Olson também fazem o mesmo desabafo
realizamos numerosos retiros, seminários e oficinas para cristãos leigos e pastores e notamos que estão abertos para o estudo sério e para a reflexão sobre a Palavra de Deus à luz de temas atuais. Verificamos, porém, um fenômeno estranho: entre as mesmas pessoas famintas de entendimento e que contribuem com descobertas maravilhosas alastra-se a frieza tão logo se pronuncie a palavra “teologia”. [3]

Mas, qual é a resposta para a fatídica questão: quem precisa de teologia? Embora a resposta possa parecer um tanto que estranha, ela é simples: todos! Não somente cristãos, mas os incrédulos, ateus, agnósticos, e demais adeptos de qualquer religião não cristã! Todos precisam ouvir de forma inteligente e coordenada a clara e vigorosa pregação do Evangelho. A teologia trabalha com a sistematização da revelação registrada: a Escritura Sagrada. Todos têm o dever e a necessidade de aprender do único e verdadeiro Deus. O Senhor se revela de modo geral a todos (Sl 19:1-6). Mas, Ele também se revela de modo especial, através das Escrituras (Sl 19:7-14). Entretanto, este segundo modo de Deus se dar a conhecer não deve ser restrito aos que crêem nEle. A principal diferença destes dois modos de Deus se revelar, é que a revelação especial é proposicional, enquanto que a geral não o é, mas o conteúdo da revelação, independentemente do seu modo, tem o propósito de que todos conheçam o seu Ser, e tremam diante da Sua majestade. Todos precisam de uma cosmovisão que seja fiel àquilo que a Bíblia, que é a Palavra de Deus diz.
Curiosamente esta rejeição da teologia não torna o indivíduo isento de ser um teólogo! A diferença não é entre teólogos e não-teólogos, mas entre teólogos acadêmicos e pragmáticos, teólogos coerentes e outros inconsistentes. O fato de um animal não reconhecer o seu próprio reflexo diante de um espelho, não significa que aquilo que vê seja outro animal! Do mesmo modo, alguém que despreza a “teologia” não anula o fato que ele seja um teólogo! Por isso, todos são teólogos. Grenz e Olson nos adverte que “ninguém que reflita sobre as perguntas cruciais da vida escapa de fazer teologia. E qualquer um que reflita sobre as questões fundamentais da vida – incluindo perguntas sobre Deus e nossa relação com ele – é teólogo”. [4] Neste sentido até mesmo os ateus são teólogos, por desejarem negar esta relação através dum raciocínio falacioso sustentando que Deus não existe.
Alguns cristãos crêem que a sua sinceridade os livrará do erro doutrinário. Freqüentemente tenho a impressão de que os crentes em geral consideram a sinceridade de atitude como sendo mais importante do que o conteúdo da crença. Não se deprecia a necessidade de ser sincero; nenhuma pessoa sensata crê que a sinceridade deva substituir o conhecimento da verdade, pois elas não estão em contradição. O resultado desastroso de se crer numa falsidade, não importando quão sincera seja a pessoa, é que quanto maior for o grau da sinceridade, mais horrendas serão as conseqüências. Toda crença tem conseqüência, e uma convicção errada sustentada com sinceridade trás dolorosas seqüelas.
Esta rejeição em alguns cristãos existe porque os seus pastores implantam-na. Felizmente, temos pastores defendendo a necessidade de se estudar sistematicamente teologia com a igreja, mas que por falta de sabedoria, ou preparo adequado, usam uma linguagem técnica pesada e indigerível para a maioria das pessoas. Acabam exercendo o seu pedantismo teológico criando um enorme abismo entre os crentes e o estudo proveitoso da teologia. O pedantismo deve ser rejeitado como uma manifestação do orgulho (1 Co 8:1), mas o saber responsável da teologia é uma necessidade vital para a saúde da igreja.
Mas, por outro lado há pastores que após o término do seu curso teológico, abandonam o estudo sério. Outros tomam uma atitude pior, desprezam todo estudo na pseudopiedade de uma versão distorcida do “somente a Escritura”. Acerca disto Lewis S. Shafer comenta que
como bem poderia um médico descartar os seus livros de anatomia e terapêutica assim também o pregador pode rejeitar os seus livros sobre Teologia Sistemática; e visto que a doutrina é a estrutura óssea da verdade revelada, a sua negligência deve resultar numa mensagem caracterizada por incerteza, imprecisão e imaturidade. [5]

Aos presbíteros docentes, Deus os chamou para serem pastores-mestres (Ef 4:11). Pastorear não é somente visitação! É zelar da igreja e alimentá-la com a substanciosa Palavra de Deus. É nutrir o rebanho com alimento que procede da “boca de Deus” (Dt 8:3). Todo trabalho pastoral depende direta e indiretamente do correto manuseio da Palavra de Deus. Entretanto, há pastores que embora não desprezam a teologia, falam dela como se fosse um acessório do ministério pastoral e da igreja, que pode ser facilmente ignorado, ou usado só quando for realmente necessário! Essa dicotomia não somente é estranha, mas confusa. O fato de não usarmos a linguagem técnica teológica, não significa que estamos com isso abandonando a teologia.
O apóstolo Pedro nos ordena “santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós "(1 Pe 3:15). Segundo este texto, a formulação teológica em seu dever moral deve indispensavelmente conter:
1. santificação (santificai a Cristo)
2. submissão (Cristo como Senhor)
3. coerência no todo (em vosso coração)
4. diligência (sempre preparados)
5. raciocínio [coordenado] (para responder)
6. experiência (há em vós)

A teologia é uma exigência inevitável para se exercer a inteligência cristã. A teologia tem o objetivo de fornecer a relação sistematizada de informações extraídas da Bíblia. A verdade deve sempre ser tratada com um raciocínio coordenado para produzirmos respostas claras e inteligíveis, porque crer é também pensar. O filósofo cristão Gordon H. Clark observa que
o inquiridor pergunta por uma razão, ou, como podemos dizer, ele pergunta pela lógica de nossa esperança; e precisamos estar preparados para dar a lógica e razão da nossa fé. Não somente conceder tal réplica, mas manter com santa dignidade e importância a mensagem cristã, e as perguntas que nos são feitas, tornando-as uma oportunidade que não podem ser desperdiçadas. [6]
A teologia é o resultado confessional de nossa cosmovisão. Cada cristão deve ser capaz de expor com síntese, mas com conteúdo, o que crê. Como entendemos e interpretamos a realidade ao nosso derredor? Posso ter certeza do que conheço? De que modo aceitamos os acontecimentos que produzem o sofrimento? Que significado tem a minha existência?
Vigiemos contra o nosso sutil orgulho. O saber é para servir a Deus e edificar a Igreja. O princípio “maior é o que serve” continua irrevogável. A falta de humildade demonstrará uma teologia enferma (1 Co 8:1-3). Não podemos esquecer que o Deus imutável ainda resiste ao soberbo, mesmo em sua forma pedante. Se a nossa teologia não produz humildade e santificação, certamente ela não procede de Deus e não edificará a sua Igreja.
Uma teologia que não pode ser orada, é uma teologia impossível de ser praticada, e que não deve ser ensinada. Estudar a sistematização das doutrinas da Escritura Sagrada deve resultar em santificação. John L. Dagg observa que
o estudo da verdade religiosa deveria ser empreendido e continuado com base no senso de dever, tendo como escopo o aprimoramento do coração. Uma vez aprendida, essa verdade não deveria ser guardada em uma estante, como se fosse um objeto de pesquisa; mas deveria ser implantada profundamente no coração, onde o seu poder santificador pode ser sentido. Estudar teologia com o propósito de satisfazer à curiosidade ou de preparar-se para uma profissão, seria um abuso, uma profanação daquilo que precisa ser considerado como extremamente santo. [7]

Todo o cuidado com o odium theologicum ainda é pouco! Ao adotar uma posição o estudante de teologia não deve alimentar um sentimento de inimizade ao tratar as demais opiniões contrárias. O sumário de toda sistematização da Escritura foi concedida pelo Senhor Jesus quando disse: “amarás ao Senhor, teu Deus... e o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12:29-31). Qualquer teologia que se desvie deste princípio, errou o alvo!


NOTAS:
[1] - John L. Dagg, Manual de Teologia (São José dos Campos, Ed. Fiel, 1989), p. 4-5.
[2] - James Orr, Sidelights on Christian Doctrine (New York, AC. Armstrong and Sons, 1909), p. 3
[3] - Stanley J. Grenz & Roger E. Olson, Quem Precisa de Teologia? (São Paulo, Ed. Vida, 2002), p. 9
[4] - Stanley J. Grenz & Roger E. Olson, Quem Precisa de Teologia?, p. 14
[5] - Lewis S. Shafer, Teologia Sistemática (São Paulo, Ed. Hagnos, 2003), vol. 1-2, p. 5
[6] - Gordon H. Clark, Peter Speaks Today – A Devotional Commentary on First Peter (Philadelphia, Presbyterian and Reformed Publishing CO., 1967), p. 118
[7] - John L. Dagg, Manual de Teologia , p. 1.

Mariologia à Luz da Bíblia – Estudo de Samuele Bacchiocchi – Parte 02



Parte 03 – A Assunção Corporal de Maria

Outra indicação importante da tentativa da Igreja Católica de elevar Maria para o mesmo lugar de Cristo, é o dogma da Assunção corporal de Maria ao céu. O paralelo entre Cristo e Maria é auto-evidente. O ensinamento bíblico de que Jesus subiu ao céu como Rei dos Reis, é acompanhado pela alegação católica de que Maria foi assunta ao céu, para servir como “Rainha de todas as coisas.”
Os dogmas católicos romanos em relação a Maria revelam uma glorificação progressiva de seu status. Notamos como Maria tem sido progressivamente elevada de um ser inocente a um ser concebido imaculadamente, sendo corporalmente assunta ao céu, e venerada como Co-redentora e mediadora da graça (Medianeira) e Rainha dos Céus.
A crescente exaltação e adoração a Maria está pressionando o papa a promulgar um dogma final, que oficialmente elevaria a Maria ao status de Co-redentora. Este ensino será discutido mais detalhadamente na seção seguinte deste capítulo. Mais de seis milhões de católicos de cerca de 150 países já assinaram uma petição pedindo ao papa para fazer uma definição formal do dogma mariano final “que a Virgem Maria é Co-redentora com Jesus e coopera plenamente com seu Filho na redenção da humanidade.” [49] Se e quando o Papa promulgar este dogma que declara Maria como Co-Redentora e mediadora de todas as graças e advogada do povo de Deus, a glorificação de Maria, terá atingido o estágio final de sua deificação.

A promulgação do dogma da Assunção corporal de Maria

Este dogma da Assunção corporal de Maria, foi oficialmente promulgado pelo Papa Pio XII em 01 novembro de 1950, um dia observado pelos católicos como “Festa de Todos os Santos”. Pio XII declarou solenemente: “Pela autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e pela nossa própria autoridade, nós pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a Imaculada Mãe de Deus , a sempre Virgem Maria, tendo concluído o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” [50].
Para assegurar que esse dogma fosse aceito sem questionamento, Pio XII acrescentou esta advertência assustadora: “Se alguém, que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida o que temos definido, que ele saiba que tem se afastado completamente da fé divina e católica. . . . É proibido a qualquer homem mudar esta nossa declaração, pronunciamento e definição, ou tentar se opor e contrariá-la. Se alguém presumir fazer tal tentativa, deixe-o saber que nele incorrerá a ira do Deus Todo Poderoso e dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo” [51].
O Catecismo amplia o significado deste dogma, dizendo: “A Assunção da Santíssima Virgem é uma participação singular na ressurreição de Seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos:”No parto você [Maria] manteve sua virgindade, em sua Dormição [dormindo na sepultura] você não deixa o mundo, ó Mãe de Deus, mas se junta à fonte da vida. Você concebeu o Deus vivo e por suas orações, vai entregar as nossas almas da morte.’ [52]
Através da promulgação do dogma da Assunção corporal de Maria, Pio XII conseguiu elevar Maria a mais alta posição como Rainha dos Céus. “Maria finalmente atingiu a maior coroa dos seus privilégios, e estaria imune à corrupção do sepulcro e, da mesma forma como seu filho, ela iria vencer a morte e ser levada de corpo e alma à glória do céu sobrenatural, onde como Rainha iria brilhar diante da mão direita do seu mesmo Filho,o Rei imortal dos séculos” [53].

Maria é retratada como a Rainha do Céu em Apocalipse?

A crença na coroação de Maria como a Rainha do Céu é claramente negada pela visão do trono de Deus encontrada em Apocalipse capítulos quatro e cinco. Na visão João viu Deus sentado no trono, cercado por 24 anciões e quatro seres viventes. Cristo, o Cordeiro, está no trono. Milhares de anjos circundam o trono. Não há Rainha do Céu, ao lado do trono de Cristo, pois isso seria uma abominação ao Senhor.
Jeremias adverte o povo de Judá, contra o culto da Rainha do Céu, dizendo: “Assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: “Vocês e suas mulheres cumpriram o que prometeram quando disseram: “Certamente cumpriremos os votos que fizemos de queimar incenso e derramar ofertas de bebidas à Rainha dos Céus”.” “Prossigam! Façam o que prometeram! Cumpram os seus votos!” Mas ouçam a palavra do Senhor. . .Vigiarei sobre eles para trazer-lhes a desgraça e não o bem…perecerão pela espada e pela fome até que sejam todos destruídos”(Jr 44:25-27; grifo nosso).
A razão para a condenação de Deus daqueles que promovem essa adoração à Rainha dos Céus, é que Ele é o único a ser adorado e glorificado. ”Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os confins da terra; porque eu sou Deus, e não há outro.”(Is 45:22). Aqueles que promovem a adoração de falsos deuses como a Rainha do Céu, são advertidos em Apocalipse que eles beberão “do vinho do furor de Deus que foi derramado sem mistura no cálice da sua ira” (Ap 14:10).

A reação do Segundo Concílio do Vaticano

A glorificação por Pio XII de Maria como Rainha dos Céus à direita do seu Filho, teve uma reação retardada no Segundo Concílio do Vaticano (1962-1965). Em um artigo na revista Time, intitulado “Cover Stories: Handmaid or Feminist? - Histórias de Capa: Serva ou feminista” Richard Osling escreve: “Antes do Vaticano II, os papas tinham proclamado a Maria Co-redentora com Jesus. Durante o Concílio, os bispos estavam sob pressão dos fiéis para que ratificassem a doutrina da Co-redenção; em vez disso não emitiram nenhum decreto sobre Maria, mas ela foi incorporada na Constituição sobre a Igreja, um movimento que colocou a Virgem entre a comunidade dos crentes em Cristo ao invés de algo semelhante a uma posição de co-igual”[54.]
Osling explica que uma razão para o baixo papel de Maria no Concílio Vaticano II era “uma preocupação com a transformação de Maria em uma divindade competitiva, uma tradição comum a muitas das religiões pagãs que o cristianismo substituiu. ”O grande temor era que ela fosse adorada acima de seu filho.” [55]
A preocupação do Vaticano II se justifica, porque a piedade popular tem ignorado a advertência do Conselho, preferindo muitas vezes venerarem e adorá-la acima do próprio Cristo. Na minha terra natal, a Itália, por exemplo, os católicos exibem muito mais em suas casas o ícone do Sagrado Coração de Maria do que o de Cristo. A oração popular na sequência do Rosário diz: “Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia! Vida, doçura e esperança nossa, salve!” Esta é a maneira piedosa dos crentes oferecerem a sua vida e esperança para a Rainha dos Céus.
Na ladainha oficial da liturgia católica, Maria é chamada “Rainha dos Anjos, Rainha dos Patriarcas, Rainha dos Profetas, Rainha dos Apóstolos, Rainha dos Mártires, Rainha dos Confessores, Rainha das Virgens, Rainha de todos os santos, Rainha concebida sem pecado original, Rainha assunta ao céu, Rainha do sacratíssimo Rosário, Rainha da Paz “[56] A elevação de Maria ao papel da Rainha do Céu e de todos os crentes que já viveram, é uma invenção puramente católica, condenada na Escritura como abominação ao Senhor.

A Adoração Pagã à Rainha do Céu

O culto à Rainha dos Céus pode ser rastreado até os tempos antigos. Observamos anteriormente que os israelitas infiéis adoraram à Rainha dos Céus. ”Os filhos ajuntam a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres preparam a massa e fazem bolos para a Rainha dos Céus. Além disso, derramam ofertas a outros deuses para provoca rem a minha ira” (Jr 7:18). Esta é uma reminiscência dos antigos fenícios que chamavam à lua Ahstoreth ou Astarte, a Rainha dos Céus.
Em seu artigo “Maria e o Papa: Observações sobre o Dogma da Assunção de Maria”, o Prof Hermann Sasses reconhece claramente que “O culto mariano foi a substituição cristã para o culto das grandes divindades femininas, que desempenharam um papel tão importante na vida da humanidade pagã pré-cristã, as santas virgens e mães divinas, a Ishtar babilônica, cujo culto já havia forçado o seu caminho em Israel, a Rainha do Céu Síria, a grande mãe da Ásia Menor, a egípcia Ísis, cujo favor do Ocidente é atestado pelo uso prolongado do nome “Isidor” entre judeus e cristãos. Mas infelizmente não foi apenas uma substituição cristã para uma religião pagã, era igualmente uma religião pagã numa roupagem cristã. O culto mariano é o último dos grandes cultos à uma divindade feminina, que fez o seu caminho do Oriente para o mundo romano, pois na segunda Guerra Púnica Roma havia adotado o culto à Mater Magna da Ásia Menor”. [57]
O Prof Sasses continua observando que o motivo para o triunfo da veneração de Maria na cristandade é encontrado no fato de que o homem pecador “perverte a ordem de Deus, porque ele não reconhece Deus como Senhor, e prefere fazer Deus sujeito a ele, portanto, a necessidade de uma divindade feminina é da essência do homem natural, caído. “[58] A divindade feminina concebida para satisfazer as necessidades humanas, pode ser mais facilmente manipulada, porque afinal de contas ela é terna Mãe de Deus, e não o intransigente Deus Pai da Bíblia.

Argumentos da Escritura para a Assunção de Maria

O dogma da assunção corpórea de Maria ao céu é um surpreendente dogma que a igreja católica defende, apelando para a Escritura e a tradição. Mas o fato é que não há apoio bíblico ou histórico para este dogma. Notáveis defensores deste dogma católico reconhecem esse fato. Por exemplo, o apologista católico Ludwig Ott admite que “provas diretas e expressas das Escrituras não são obtidas.” [59] Do mesmo modo o autor católico romano Eamon Duffy admite que “não existe, evidentemente, nenhuma evidência bíblica ou histórica para isso… ” [60]. No entanto, alguns estudiosos católicos ainda buscam encontrar apoio indireto em alguns poucos textos bíblicos que vamos examinar brevemente.

Será que Mateus 27:52-53 Apoia à Assunção de Maria?

A abertura dos túmulos após a ressurreição de Jesus, que ocasionou a ressurreição de alguns santos sugere a alguns católicos a “probabilidade” da assunção corpórea de Maria. Ott diz que “Se os justificados da Antiga Aliança eram chamados para a perfeição da salvação, imediatamente após a conclusão da obra redentora de Cristo, então é possível e provável que a Mãe do Senhor foi chamado para ele também.” [61]
Esta interpretação é desacreditada por dois motivos principais. Primeiro, o texto fala apenas que “os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos que tinham dormido foram ressuscitados” (Mateus 27:52). Não nos é dito que estes santos foram ressuscitados, como Lázaro ou transladados em seus corpos imortais para o céu depois de completarem sua missão de testemunho. Se eles foram ressuscitados imortais, eles representam as “primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15:20). Mas Paulo aplica esta frase exclusivamente à ressurreição de Cristo, embora ele enumere as várias aparições de Cristo. É surpreendente que a ressurreição de alguns santos no momento da ressurreição de Cristo, só é mencionada por Mateus. Se estes santos foram finalmente transladados para o céu, um evento tão importante não poderia ter escapado à atenção dos escritores do Novo Testamento.
Um segundo ponto importante é que Maria não é mencionada no grupo que foi ressuscitado, nem a Bíblia jamais sugere que ela foi elevada em um momento posterior. Assim, este texto não oferece qualquer suporte à crença de que Maria foi assunta ao céu corporalmente.

Apocalipse 12:1-6 Apoia a Assunção de Maria?

Apocalipse fala de uma mulher que “deu à luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono” (Ap 12:5). Alguns autores católicos defendem que esta mulher representa a mãe de Cristo, que foi assunta ao céu. [62]
Esta interpretação não pode ser apoiada por esta passagem, por duas razões principais. Em primeiro lugar, a mulher representa, não Maria, mas a Igreja que foi protegida por Deus durante um período profético dos 1.260 dias. O dragão tentou “varrê-la para longe com uma inundação” de perseguições, mas ele não teve sucesso porque Deus a protegeu.
Em segundo lugar, não era a mulher, mas Cristo quem “foi arrebatado para Deus e para o seu trono” (Ap 12:5). Uma leitura objetiva do texto não pode suportar a crença na assunção corpórea de Maria ao céu. Da mesma forma, a imagem celestial de “uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12:1), dificilmente pode representar Maria, a Rainha do Céu, como retratada na bandeira europeia. A razão é simples. Em Apocalipse, a mulher não é “arrebatada para Deus” no céu, mas “fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias.” (Apocalipse 12: 6).
É evidente que os teólogos católicos estão ávidos por textos de prova para defender a assunção corpórea de Maria ao céu. Tais textos não existem porque a Bíblia ensina claramente que só Cristo subiu ao céu e foi “exaltado à destra de Deus” (Atos 2:33). Afirmar que Maria ressuscitou dos mortos e foi levada para o céu para lhe ser concedido um status semelhante ao de Cristo, em última análise, denigre o papel único de Cristo como redentor.

Argumentos da Tradição para a Assunção de Maria

O dogma da Assunção de Maria carece não só de suporte bíblico, mas também de evidencia cristã. Nenhum escritor cristão jamais afirmou ter visto uma relíquia do corpo de Maria e nenhuma cidade jamais afirmou ter Maria permanecido. Em contrapartida, todos parecem saber que os túmulos de Pedro e Paulo estavam em Roma e os de João e Timóteo em Éfeso.
Durante séculos, na Igreja primitiva houve um silêncio total sobre o final de Maria. A primeira menção é de Epifânio, um nativo da Palestina que se mudou para Chipre, em 390, onde foi eleito Bispo de Salamina. Ele afirma especificamente que ninguém sabe o que realmente aconteceu a Maria. Ele escreveu: “Mas se alguns pensam que estamos enganados, investigue as Escrituras. Eles não encontrarão a morte de Maria, não vão descobrir se ela morreu ou não morreu, não vão descobrir se ela foi enterrada ou não foi enterrada. . . A Escritura é absolutamente omissa sobre o fim de Maria. . . Da minha parte, eu não me atrevo a falar, mas eu mantenho meus próprios pensamentos e a prática do silêncio. . .pois o fim dela ninguém sabe ” [63].
Como, então, o ensino da Assunção corporal de Maria se tornou tão proeminente que, eventualmente, ele foi declarado um dogma em 1950? A resposta pode ser encontrada na circulação de um evangelho apócrifo no final do século V conhecido como o Beatae Transitus Mariae (As Viagens de Santa Maria). Este evangelho apócrifo deu origem a uma gama de cômputos em Trânsito em copta, grego, latim, siríaco, árabe, etíope e armênio. O primeiro pai da Igreja a afirmar explicitamente a assunção de Maria foi Gregório de Tours, em 590 dC. Ele baseou seu ensinamento sobre os apócrifos Transitus Mariae Beatae. O problema é que a literatura de Trânsito é considerada por todos os historiadores sérios como uma completa invenção. A mariologista Católica, Juniper Carol, afirma explicitamente: “A literatura Transitus é reconhecidamente sem valor, como história, como um relato histórico da morte de Maria e da assunção corpórea, sob esse aspecto o historiador é justificado em descartá-la com um desgosto crítico.” [64] Em um semelhante sentido, o teólogo católico Karl Rahner reconhece que “não há nada de valor histórico, em tais obras apócrifas.” [65]

Literatura Apócrifa Transitus Condenada pelos Papas

Contrariamente à afirmação do Papa Pio XII que a Assunção de Maria é um “dogma verdadeiro divinamente revelado”, a realidade histórica é que a Igreja Católica desenvolveu este ensino com base em documentos heréticos, que foram condenados pela Igreja primitiva. Entre 494-496 dC, o Papa Gelásio emitiu um decreto intitulado Decretum de Libris Canonicis Ecclesiasticis et Apocryphis, em que oficialmente estabelecia a distinção entre os escritos canônicos como sendo aceitos e os escritos apócrifos como sendo rejeitados. Entre os escritos apócrifos a serem rejeitados, Gelásio incluiu  o Liber qui apellatur Transitus, id est Assumptio Sanctae Mariae, Apocryphus (O livro apócrifo, chamado Transitus, que é a Assunção de Maria Santíssima) “[66]
O Papa Gelásio condenou explicitamente a literatura Transitus e o ensino que ela promovia, dizendo: “Este e trabalhos semelhantes a este. . . não só têm sido rejeitados, mas também banidos de toda a Igreja Católica Apostólica Romana, e seus autores e seguidores foram condenados para sempre sob o vínculo indissolúvel do anátema” [67].
Vale ressaltar que todo este decreto e sua condenação foi reafirmado pelo Papa Hormisdas no século VI dC em torno de 520, [68] Estes fatos históricos provam que a Igreja primitiva via os ensinamentos da literatura Transitus como sendo uma heresia digna de condenação, e não como uma legítima expressão da crença piedosa dos fiéis. A condenação da literatura Transitus, pode explicar por que antes do sétimo e oitavo séculos há um silêncio patrístico completo sobre a doutrina da Assunção de Maria. O renomado liturgista Católico, Gregory Dix, aponta que “Em Roma, nenhuma das cinco grandes festas da nossa querida Mulher são mais velhas que 700 dC. Nessa época os festivais da Purificação, Anunciação, Assunção e do nascimento de Maria foram assumidos pelo Papa Sérgio I, um sírio de Bizâncio. A Imaculada Conceição foi desenvolvida como um festival e doutrina primeiramente na Inglaterra anglo-saxônica, no início do século XI, com base em uma mais antiga e diferente forma de origem bizantina. “[69]

Conclusão

Em 1950, Pio XII declarou o dogma da assunção corpórea de Maria como sendo revelado por Deus. Mas nosso estudo mostrou que tal dogma não tem tanto apoio bíblico como histórico. O único fundamento católico para acreditar que este dogma é “infalível”, é porque a Igreja o declara. Os fatos acima mostraram que a pretensão de infalibilidade é completamente infundada.
Como pode um Papa promulgar um dogma sendo, supostamente infalível, quando os papas anteriores condenaram este ensino como herético? Como pode um decreto papal inicial anatimizar aqueles que acreditavam na assunção de Maria, como ensinado nos evangelhos apócrifos, e agora os decretos papais condenarem aqueles que não crêem nisso? A conclusão é que os ensinamentos da assunção corpórea de Maria ao céu, deriva da lendária tradição dos homens, e não a partir da revelação bíblica.

Os Papeis de Mediadora e Redentora de Maria

Outra tentativa católica significativa para elevar Maria a uma posição semelhante à de Cristo, pode ser visto no impulso de proclamar o dogma mariano final atribuindo a Maria os papéis de Mediadora e redentora. Até o presente momento a Igreja Católica definiu quatro grandes dogmas marianos como verdades centrais: a Maternidade de Deus (teotokos), proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, a virgindade perpétua de Maria, proclamada no Sínodo de Latrão, em 649, a Imaculada Conceição proclamado pelo Papa Pio IX em 08 de dezembro de 1854, e a assunção corpórea ao céu proclamada pelo Papa Pio XII em 01 de novembro de 1950.
Muitos Católicos acreditam que agora é o momento do clímax da universalmente designada “Era de Maria”, de anunciar e definir o quinto e último dogma mariano, ou seja, a mediação universal de Maria como Co-redentora, Medianeira de todas as graças e advogada para o Povo de Deus.
Um movimento internacional de leigos, liderado pelo Vox Populi Mariae Mediatrici (A Voz do Povo para a Maria Medianeira) já recolheu mais de 7 milhões de petições assinadas em mais de 155 países. As petições estão sendo enviadas para a Congregação para a Doutrina da Fé, a uma taxa de mais de 100.000 por mês. Estes católicos estão pedindo ao papa para promulgar este dogma, dificilmente podem ser chamados de lunáticos, uma vez que incluem 43 cardeais e mais de 550 bispos.
O Vox Populi, acredita que o dogma mariano de Co-redentora, Medianeira e Advogada, iria responder as perguntas: O que o corpo e a alma de Maria estão fazendo no céu? Se ela é Rainha do Céu, como ela governa seus súditos? Para responder a essas questões, eles estão pedindo ao papa para fazer uma declaração infalível de que “a Virgem Maria é Co-redentora com Jesus e coopera plenamente com seu Filho na redenção da humanidade.” [70] Se isso fosse feito, Maria “seria uma figura muito mais poderosa, algo parecido com o quarto membro da Santíssima Trindade e a face feminina primária através da qual os cristãos experimentam o divino” [70].
É incerto ou não que o Papa Bento XVI irá promulgar este dogma mariano final. Mas o fato é que existe um forte apoio à  coroação de Maria com o título dogmático de Co-redentora, Medianeira e Advogada.

Maria, Como Medianeira de Todas as Graças

De acordo com os ensinamentos católicos “, embora Cristo seja o único mediador entre Deus e o homem (1Tm 2:5), pois somente Ele, por Sua morte na cruz, completamente reconciliou a humanidade com Deus, isto não exclui uma mediadora secundária, subordinada a Cristo.” [71]
Maria foi chamada de “mediadora” na bula Ineffabilis de 1854 do Papa Pio IX, o mesmo documento que proclamou a concepção da Maria Imaculada. Autoridades católicas tomam o termo para significar duas coisas: “1. Maria é a Medianeira de todas as graças por sua cooperação na Encarnação. E 2. Maria é a Medianeira de todas as graças por sua intercessão no céu. ” [72]
Em sua encíclica Magnae Dei Matrix (Grande Mãe de Deus), promulgada em 08 de setembro de 1892, o Papa Leão XIII declara: “nada desse imenso tesouro de todas as graças que o Senhor nos trouxe. . . é concedido para nos salvar por meio de Maria, para que, assim como ninguém pode vir ao Pai, exceto através do Filho, da mesma maneira, ninguém possa ir a Cristo senão por Sua Mãe “. [73]
A alegação de que ninguém pode vir a Cristo, exceto por meio de Maria, está em clara contradição com as palavras de Jesus: “Eu sou a porta: se alguém entrar por mim, será salvo, e entrará e sairá e encontrará pastagem” ( João 10:9). ”Ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai [não por Maria], não lhe for concedido” (João 6:65). ”Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). Os convites de Cristo são sempre pessois e diretos. Eles não admitem intermediários. Ele nos ensinou a nos aproximar de Deus diretamente como o “Pai nosso que estás nos céus”, não como “Nossa rainha que estais no Céu”. Interpor mediadores humanos entre Deus ou Cristo e o crente, significa interpretar mal a natureza de Deus, tornando-o em um punitivo e inacessível Ser, a ser temido ao invés de amado. No final, acabam adorando os intercessores da criação humana, ao invés do Deus da revelação divina.

Maria como Co-redentora com Cristo

Ao longo dos anos o termo Co-redentora, tem vindo a denotar um papel mais ativo de Maria na redenção oferecida por meio de seu Filho. No último capítulo da Constituição Lumen Gentium, dedicado a Maria, o Concílio Vaticano II declara: “sofrendo com Ele quando morreu na cruz, ela cooperou na obra do Salvador, de uma forma completamente singular, pela obediência, fé, esperança e amor ardente, para restaurar sobrenaturalmente a vida das almas. “[74]
O texto do Concílio sublinha fortemente Maria sofrendo na Cruz de seu Filho. ”Ela sofreu com seu Filho unigênito, a intensidade de Seu sofrimento, … consentindo com amor na imolação da vítima, nascida dela” [75].
De acordo com o Concílio Vaticano II, o papel redentor de Maria, que começou nesta terra continua no céu: “Assunta aos céus, ela não abandonou esta missão salvadora, mas por sua intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna.” Por este motivo, “a Virgem é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, ajudadora e Medianeira” [76]
O título de Co-redentora não aparece nos textos do Concílio.”Sensibilidade ecumênica” foi sem dúvida um fator primordial na sua prevenção. O conceito, entretanto, é transmitido por diversas vezes, na “Lumen Gentium”, que fala de Maria como “embaixo e com ele [Cristo], servindo o mistério da redenção pela graça do Deus Todo-Poderoso” e como “cooperou livremente na obra da salvação do homem”. O documento fala ainda da” união da mãe com o Filho na obra da salvação” [77].

O Uso de Co-redentora por João Paulo II

A relutância do Vaticano II para descrever Maria como Co-redentora, foi superado por João Paulo II, que freqüentemente usava o termo, tanto em suas declarações como discursos publicados. Se o assunto da co-redenção Mariana recuperou a respeitabilidade depois de uma longa “noite escura” pós-concílio, isto é devido em grande medida ao ensino vigoroso e persistente do Papa João Paulo II, um homem que foi totalmente dedicado a Maria.
Por exemplo, em saudação aos doentes após a audiência geral de 08 de setembro de 1982, o Papa disse: “Maria, embora concebida e nascida sem a mácula do pecado, participou de uma forma maravilhosa nos sofrimentos de seu divino Filho, a fim de ser Co-redentora da humanidade”[78].
Em um discurso no santuário mariano em Guayaquil, Equador, João Paulo II disse que “ao aceitar e assistir ao sacrifício do seu filho, Maria é a aurora da Redenção;. . . Crucificada espiritualmente com seu Filho crucificado (cf. Gal. 2:20), ela contemplou com amor heróico a morte de seu Deus, ela com “amor consentiu a imolação da vítima que ela mesma produziu. . . . Ela estava de maneira especial perto da cruz de seu Filho, ela também tinha que ter uma experiência privilegiada da sua Ressurreição. Na verdade, o papel de Maria como Co-redentora não cessa com a glorificação de seu Filho” [79].
Em comemoração ao sexto centenário da canonização de Santa Brígida da Suécia, em 06 de outubro de 1991, João Paulo disse: “Brigida olhou para Maria como seu modelo e apoio em vários momentos de sua vida. Ela falou energicamente sobre o privilégio divino da Imaculada Conceição de Maria. Contemplou a sua missão surpreendente como Mãe do Salvador. Ela a invocava como a Imaculada Conceição, Nossa Senhora das Dores, e Co-redentora, exaltando o papel singular de Maria na história da salvação e da vida do povo cristão. “[80]
Na Carta Apostólica Salvifici doloris (11 de fevereiro de 1984) , João Paulo II combina o sofrimento intenso de Maria com o de Cristo, tornando-os a base de nossa redenção: “Nela [Maria], os numerosos e intensos sofrimentos, foram acumulados de maneira tão interligada que não eram apenas uma prova de sua fé inabalável, mas também uma contribuição para a redenção de todos. . . . . Foi no Calvário que o sofrimento de Maria, ao lado do sofrimento de Jesus, atingiu uma intensidade que dificilmente pode ser imaginada a partir de um ponto de vista humano, mas que foi misteriosamente e sobrenaturalmente fecundo para a redenção do mundo. A sua subida ao calvário e ela ao pé da cruz, juntamente com o discípulo amado era um tipo especial de participação na morte redentora de seu filho. [81]
Esta citação da Salvifici doloris mostra como a  mistura de João Paulo II do sofrimento de Cristo com o de Maria os torna “frutíferos para a redenção do mundo.” Muitas outras declarações de João Paulo II podem ser citadas expressando a mesma crença. É evidente que ele contribuiu em grande medida para promover vigorosamente o papel de co-redentora de Maria. Ele acreditava firmemente que Maria participou ativamente da missão redentora de seu Filho. Por exemplo, em sua audiência geral de 22 de junho de 1994, João Paulo II afirmou: “Maria cooperou com Cristo na sua obra de redenção, não só preparando Jesus para sua missão, mas também se juntando a seu sacrifício para a salvação de todos” [82].

Maria como Cooperadora na redenção da humanidade

Estudiosos católicos estão ansiosos para salientar que o papel redentor de Maria “não deve ser concebido no sentido de uma equação da eficácia de Maria com a atividade redentora de Cristo, único Redentor da humanidade (1 Tm 2:5). . . “, ela mesmo necessitava de redenção e de fato foi redimida por Cristo.” [83]
No entanto, os estudiosos católicos afirmam que Maria participou na redenção de Cristo, compartilhando seu sofrimento. ”Com a força da graça da redenção merecida por Cristo, Maria, por sua espiritual entrada no sacrifício do seu divino Filho pelos homens, fez expiação pelos pecados dos homens, e mereceu a aplicação da graça redentora de Cristo. Desta forma ela colabora na redenção subjetiva da humanidade.” [84]

Argumentos Bíblicos para se chamar Maria de Co-redentora e Mediadora

Não há nenhuma evidência bíblica para chamar Maria de mediadora e co-redentora. Os apologistas católicos reconhecem este fato. Por exemplo, Ludwig Ott admite que “expressas provas bíblicas estão faltando. . . . Teólogos procuram um fundamento bíblico em uma interpretação mística de João 19:26″ [85] O texto diz: “Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí teu filho.”
A interpretação mística católica toma “mulher” para significar Maria como a mãe da humanidade. Os comentários do Catecismo da Igreja Católica sobre este texto, diz: “Jesus é o único filho de Maria, mas a sua maternidade espiritual se estende a todos os homens que ele veio para salvar” [86] A implicação é que Jesus, chamando Maria “mulher”, reconheceu ela como a mediadora da humanidade. Esta interpretação mística é tão absurda que só enfraquece o caso da doutrina. Ela só serve para mostrar que os estudiosos católicos estão buscando em vão o apoio bíblico para a doutrina proveniente exclusivamente de especulações subjetivas.
A questão da mediação entre Deus e o crente é muito séria, porque é somente através do homem-Deus, Jesus Cristo, que uma pessoa é colocada em uma relação salvadora com Deus. Cristo disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida: ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). “Nele temos a redenção pelo seu sangue, o perdão dos nossos pecados, segundo as riquezas da sua graça que ele derramou sobre nós” (Ef 1:7;. Cf. Col 1,14). “Não há salvação em nenhum outro, pois não há outro nome debaixo do céu dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12).
“Porquanto há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2:5). O argumento católico de que “um” em grego (monos) não significa apenas um (eis), porque existem outros intercessores humanos sobre a terra (1 Tm 2:1-2), ignora que o texto fala de intercessores celestiais para nossa salvação , não de interecessores humanos orando pelo bem-estar dos reis e governantes (1 Tm 2:1-2). O fato de que existem intercessores humanos sobre a terra, não implica que existem intercessores no céu além de Cristo.
Há um dilema inerente à doutrina católica sobre o papel mediador de Maria. Pois, por um lado, admite que Cristo oferece a todos os crentes a graça e a salvação que eles precisam. Mas, por outro lado, muitos documentos católicos exaltam o papel de Maria como a dispensadora de todas as graças. Este é um exemplo clássico de discurso duplo. Há um dilema impossível, neste ensinamento. Ou o papel de Maria é supérfluo ou a auto-suficiência da mediação de Cristo é insuficiente. Católicos comuns que oram a Maria como sua mediadora materna, dificilmente colocam toda a sua fé e confiança em Cristo como seu único Redentor.
A única saída para este dilema é os católicos reconhecerem a verdade bíblica fundamental que Jesus Cristo é o único Mediador no céu. ”Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16:31). Esta é uma verdade bíblica sólida que o Vaticano continua a negar, exaltando Maria como Mediadora feminina, Co-redentora, advogada, e rainha dos céus.
Não há dúvida de que Maria, como a mãe terrena de Jesus, era uma mulher piedosa usada por Deus como um canal para trazer o Redentor a este mundo. Mas, elevar Maria a uma posição semi-divina no céu, governando como a Rainha do Céu, atuando como Co-redentora, e dispensando graças, equivale a atribuir à Maria as funções e prerrogativas que legitimamente pertencem somente a Deus.

Parte 05 – A Veneração de Maria

Uma indicação significativa da tentativa final da Igreja Católica elevar Maria para o mesmo lugar de Cristo, é a veneração popular à Maria. Esta prática representa o resultado natural dos dogmas e ensinamentos marianos proclamados ao longo dos séculos pela Igreja Católica. Ao proclamar a virgindade perpétua de Maria, sua imaculada concepção, sua assunção corporal aos céus, seu papel como mediadora celestial e Co-redentora, a Igreja Católica promoveu a veneração popular à Maria, que muitas vezes ultrapassa a adoração à Cristo. Isto é evidente em uma das orações católicas mais populares, conhecida como a “Ave Maria”, que termina: “Santa Maria, Mãe de Deus. Rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. “

Maria um digno exemplo de pureza, amor e piedade

Como a mãe do Salvador do mundo, Maria, sem dúvida, mantém para sempre um lugar especial entre todas as mulheres e na história da redenção. Ela trouxe a Jesus no temor de Deus, mesmo tendo uma família disfuncional, onde o Salvador não era inicialmente aceito por seus irmãos e irmãs.
É perfeitamente natural admirar a Maria como o melhor modelo feminino de pureza, amor e piedade. Ela é um brilhante exemplo de dedicação materna, humildade e pureza.Verdadeiramente ela foi “bendita entre as mulheres” (Lucas 1:42).

A Exaltação não-bíblica de Maria

O problema é que ambas as igrejas tanta aCatólica como a Ortodoxa Grega não param por aí. A partir de meados do século V (o Concílio de Éfeso, em 431, quando Maria foi proclamada Theotokos – Mãe de Deus), elas ultrapassaram os limites bíblicos. Elas transformaram a “mãe do Senhor” (Lucas 01:43) na Mãe de Deus, a humilde “serva do Senhor” (Lucas 1:38) na Rainha do Céu, a “agraciada” (Lc 1 : 28) na Distribuidora das Graças, a “bendita entre as mulheres” (Lucas 1:42) na celeste Co-redentora, Mediadora e Advogada. Poderíamos dizer que ela foi transformada de filha remida da queda de Adão no pecado à Co-redentora da humanidade.
No início, Maria foi isenta das tendências pecaminosas herdadas, mesmo depois do pecado original. Depois de séculos de debates, ela foi proclamada em 1854 tendo sido concebida imaculadamente, ou seja, sem qualquer mancha de pecado. Ao longo dos séculos, a veneração de Maria gradualmente se tornou o culto popular de Maria. O resultado é que os católicos devotos de hoje dificilmente deixam escapar um Pater Noster, sem uma Ave Maria. Eles se voltam com mais freqüência para a mãe, compassiva para intercessões, do que ao divino Filho de Deus, porque pensam que através de Maria qualquer petição será mais certamente respondida.

A distinção entre a adoração e veneração

A Igreja Católica ensina que há uma distinção básica entre a adoração à Deus, conhecida como latria, a veneração geral dos santos, chamada dulia, e a especial veneração de Maria, chamada hiperdulia. Em seu livro “Introdução à Maria: O Coração da Doutrina e da devoção mariana”, o professor Mark Miravalle explica os diferentes significados dos três termos.
“Adoração, que é conhecida como latria na teologia clássica, é o culto e homenagem que justamente é oferecido a Deus sozinho. É o reconhecimento da excelência e perfeição de uma pessoa, incriada e divina. . . Veneração, conhecido como dulia na teologia clássica, é a honra devida a excelência de uma pessoa criada. . . .Na categoria de veneração vemos a honra e reverência que os santos justamente recebem. . . .
“Dentro da categoria geral de veneração, podemos falar de um único nível de veneração. . . a classicamente chamada hiperdulia, [que é] a devoção atribuída à Virgem Maria. Hiperdulia ou especial veneração a Maria continua sendo completamente diferente e inferior à adoração que é devida somente a Deus. A devoção a Maria nunca rivaliza na natureza ou grau de adoração adequado somente a Deus. Apesar da veneração da Santíssima Virgem ser sempre inferior à adoração dada exclusivamente a Deus, ela sempre será superior a devoção dada a todos os outros santos e anjos.” [87]
Estas distinções teóricas entre a adoração de Deus, a veneração geral dos santos, e a veneração especial à Maria, existe principalmente na mente dos teólogos católicos, mas eles são desconhecidos ou ignorados na vida devocional da maioria dos católicos. Isto é evidente quando consideramos as orações oferecidas a Maria.

Argumentos Bíblicos para a Veneração de Maria

Textos bíblicos usados para apoiar a veneração de Maria

A defesa católica para a veneração de Maria é em grande parte derivada de sua exaltação, expressa nos dogmas e ensinamentos marianos gradualmente promulgados ao longo dos séculos. É baseada nas funções atribuídas a ela pela Igreja Católica como Mãe de Deus, Rainha do Céu, Medianeira, Co-redentora, Advogada, Intercessora e Dispensadora de graças.
A base bíblica para a veneração de Maria não existe. Os poucos textos que são geralmente usados, não fazem alusão a qualquer forma de culto devido à Maria. O apologista católico Ludwig Ott resume os textos utilizados para a veneração de Maria acima de todas as outras criaturas, mas abaixo de Deus. Ele escreve: “A fonte das Escrituras sobre a veneração especial devida à Madre de Deus pode ser encontrada em Lucas 1:28: “Salve, ó cheia de graça, o Senhor é contigo”, no louvor de Isabel, cheia do Espírito Santo, Lucas 1:42: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre “, nas palavras proféticas da Mãe de Deus, Lucas 1:48:”Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada”, nas palavras da mulher na multidão, Lucas 11:27: “Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram!” [88].
A conclusão destes textos é que “em vista de sua dignidade como Mãe de Deus e sua plenitude de graça, uma veneração especial é devida a Maria.” [89] Esta conclusão dificilmente pode ser extraída de uma simples leitura dos textos citados.

A resposta bíblica para a veneração de Maria

Os textos citados não dizem nada sobre a veneração de Maria acima de todas as criaturas, mas abaixo de Deus. O elogio de Isabel “Bendita és tu entre as mulheres” (Lucas 1:42), sugere que Maria era verdadeiramente “abençoada” pelo favor de Deus concedido a ela para levar seu filho. Maria reconhece este privilégio único, dizendo: “Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lucas 1:48). Mas note-se que nada é atribuído a Maria que não seja atribuído a outra pessoa “abençoada” na Bíblia.
Rebeca foi abençoada antes de sair de sua casa para se casar com Isaque: “Abençoaram a Rebeca e lhe disseram: És nossa irmã; sê tu a mãe de milhares de milhares, e que a tua descendência possua a porta dos seus inimigos”(Gn 24:60). Abimeleque, abençoou Isaque, dizendo: “Tu és agora o abençoado do Senhor” (Gn 26:29). Moisés pronuncia uma bênção sobre toda a nação de Israel: “Bendito serás mais do que todos os povos; não haverá entre ti nem homem, nem mulher estéril, nem entre os teus animais” (Dt 7:14).
A Bíblia declara como “abençoado” todas as pessoas que seguem a Deus: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios. . . mas seu prazer está na lei do Senhor “(Sl 1:1-2). ”Bem-aventurados são todos aqueles que confiam n’Ele” (Sl 2:12). Muitas pessoas na história bíblica foram encontradas no “favor” de Deus (1 Sm 2:26; Pv 12:2). Em nenhum lugar a Bíblia indica a veneração à pessoas”Bem-aventuradas”.
Contrariamente aos ensinamentos católicos, Maria não foi abençoada acima de todas as mulheres, mas foi a mais bendita entre todas as mulheres. Mesmo a Nova Bíblia Católica americana diz: “Bendita és tu entre as mulheres” (Lucas 1:42; grifo nosso). Há uma diferença significativa entre os dois termos, porque ser bendita entre as mulheres, não torna Maria digna de veneração acima de todas as outras mulheres.

A não veneração de Maria no Novo Testamento

“Não há um único exemplo no Novo Testamento, onde foi dada veneração a Maria. Quando vieram os Magos à manjedoura para visitar o menino Jesus, Mateus 2:11 declara que “Prostrando-se, o adoraram” não adoraram à Maria.[90]
Além disso, as Escrituras claramente proíbe nos curvar-nos em veneração, diante de qualquer criatura, incluindo os anjos. Quando João, o Revelador, curvou-se aos pés de um anjo, foi-lhe dito: “Você não deve fazer isso! Eu sou um servo como tu e teus irmãos, os profetas, e aqueles que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus” (Ap 22:9).
A Bíblia ensina claramente que não devemos fazer “ídolos” de qualquer criatura ou mesmo nos curvar a elas em um ato de devoção religiosa (Ex 20:4-5). Na Igreja Católica as imagens ou estátuas de Maria são produzidos em massa como ícones para fins de culto. Elas são consideradas como auxiliares de culto, no sentido de que o crente se ajoelha e reza diante delas, a fim de formar uma imagem mental real de Maria a quem eles estão adorando.
A Escritura condena a idolatria do uso de imagens como auxílio para o culto. Paulo explica que a idolatria envolve a troca da glória do Deus imortal por imagens de seres mortais: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível” (Rm 1:22-23) . Venerar Maria como a Rainha do Céu, curvando-se e orando diante de seu ícone ou estátua, descrevendo-a com 12 estrelas em sua cabeça, lembra-nos da antiga e idolátrica adoração pagã à Rainha dos Céus condenada na Bíblia (cf. Jer 7 : 18). Também promover o culto à Maria, conhecido como Mariolatria é idolatria.

Nenhuma diferença real entre veneração e adoração

Apesar das tentativas de teólogos católicos para diferenciar a adoração reservada a Deus, conhecida como latria, da veneração geral dos santos, chamada dulia, e da especial veneração à Maria, chamada hiperdulia, não há distinções na vida de devoção dos católicos praticantes . Eles não mudam de marcha mental quando se deslocam do Pater Noster a Ave Maria. Oração é oração, seja ela dirigida ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo, ou a Maria e os santos.
As muitas orações católicas devotadas à Maria, dificilmente fazem uma distinção entre adoração e veneração.Tomemos, por exemplo, o popular livro “Novena de orações em honra à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro”, publicado com o imprimatur oficial católico. Uma oração diz:
“Não temos uma maior ajuda,
nenhuma esperança maior do que você,
Ó puríssima Virgem; ajude-nos, então,
Nossa esperança está em você, nos gloriamos em você,
nós somos seus servos.
Não nos desaponte” [91].
No mesmo livro devocional, há orações semelhantes, onde o poder de Maria é descrito como superior ao de Jesus. Esta é uma delas: “Vinde em meu auxílio, nossa Mãe querida, que eu recomendo-me a ti. Em tuas mãos ponho minha salvação eterna, e para ti confio a minha alma. Conte-me entre os teus servos mais devotos; ter-me sob a vossa proteção, é suficiente para mim. Pois, se tu me proteger, querida Mãe, não tenho medo de nada: nem dos meus pecados, porque tu queres obter o perdão deles, nem do diabo, porque és mais poderosa do que todo o inferno juntos, nem mesmo de Jesus, o meu juiz, porque, por uma oração sua, Ele vai ser apaziguado”92.
A noção de que uma oração à Maria tem o condão de aplacar Jesus, denigre Jesus num juiz punitivo que precisa ser amaciado pela sua mãe compassiva. Tais ensinamentos são uma blasfêmia para dizer o mínimo.
Similares e marcantes exemplos do culto à Maria podem ser encontrados no famoso livro de Afonso de Ligório (1696-1787), “As Glórias de Maria” (1750 dC), um livro que foi publicado em mais de 800 edições, com a aprovação oficial católica (imprimatur) . Liguori foi canonizado como um santo em 1831 pelo Papa Gregório XVI. A circulação em massa de seu livro em 72 línguas, tem desempenhado um papel importante na promoção de alegações absurdas a respeito de Maria. Alguns exemplos bastarão para mostrar as alegações extravagantes do livro
“Não devemos hesitar em pedir a ela para nos salvar, quando” o caminho da salvação está aberto de nenhuma outra forma que não através de Maria. “
“Muitas coisas”, diz Nicephoros “, são pedidas à Deus e não são concedidas: elas são pedidas à Maria, e são obtidas. “Ao comando de Maria todos obedecem, mesmo Deus.” [93]
Afirmações como estas sobre o caminho da salvação a ser aberta apenas por meio de Maria, e que tem a capacidade de manipular a Deus para fazer sua vontade, são repugnantes, se não blasfemos, para qualquer cristão familiarizado com a visão bíblica da salvação e do caráter de Deus. O caminho da salvação é aberto, não por meio de Maria, mas somente através de Cristo: “Não há salvação em nenhum outro, pois não há outro nome debaixo do céu dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12). É absurdo supor que o Deus Criador é obrigado a receber ordens de uma criatura humana, Maria.
A amostragem das declarações acima são suficientes para mostrar que a distinção teórica entre a adoração à Deus e a veneração à Maria, quase não existe no nível experiencial de católicos devotos. Parte do motivo é que algumas das orações à Maria a exaltam acima do próprio Deus. O resultado final é que milhões de católicos sinceros hoje cultuam uma deusa fabricada por sua Igreja, e não o Deus da revelação bíblica.
O culto à Maria é promovido durante todo o ano, especialmente através das conhecidas Festas de Santa Maria. O calendário litúrgico católico mostra que todos os principais fatos e ficções da vida de Maria são celebrados com nada menos que 35 festas marianas. Algumas das festas anuais, como a Anunciação, a Imaculada Conceição, a Purificação e a Assunção ao céu, são a contrapartida das festas do nascimento, ressurreição e ascensão de Cristo. O objetivo é estabelecer um paralelo inconfundível entre Maria e Cristo, que conduz finalmente os católicos devotos ao culto de Maria como um ser semi-divino.

Conclusão

Nosso estudo dos dogmas e ensinamentos marianos proclamados ao longo dos séculos pela Igreja Católica, revelaram que tem havido uma elevação gradual e crescente de Maria para o mesmo lugar de Jesus Cristo. As estratégias subjacentes à promulgação dos dogmas marianos foi provar que Maria compartilha as qualidades e funções similares a do próprio Senhor.
Ao proclamar a virgindade perpétua de Maria, sua imaculada concepção, sua assunção corporal aos céus, seu papel como mediadora celestial, Co-redentora e dispensadora de graças, a Igreja Católica tem promovido uma veneração popular à Maria, que ultrapassa de longe a adoração de Cristo. Isto é evidente, como já vimos, em algumas das orações a Maria que mostram a extraordinária influência que ela exerce no seio da Trindade.
A implicação mais grave da veneração à Maria, que os católicos devotos experimentam como adoração real, é que ela diminui a majestade de Cristo e da honra devida somente a Ele.. Cada exaltação a Maria, em última análise resulta na depreciação de Cristo. Ao exaltar a mãe humana de Jesus como um canal celestial de intercessão e de redenção, a Igreja Católica está obstruindo e tornando desnecessário, o acesso imediato dos crentes ao ministério redentor de Cristo no santuário celestial.
A ordem e promessa do Senhor a quem é enganado pelos enganosos ensinos  e práticas marianas é clara: ““saiam do meio deles e separem-se”, diz o Senhor. “Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei” “e lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas”, diz o Senhor todo-poderoso” (2 Coríntios 6:17-18).

Referências

49. http://zenit.org/article-17236?l=english
50. Munificentissimus Deus, Selected Documenst of Pope Pius XII (Washington, 19? ), p. 45.
51. Ibid., p. 47.
52. Catechism of the Catholic Church (note 11), p. 252, paragraph
53. Henry Denzinger (note 31), p. 647, no. 2331.
54. Richard N. Osling, “Cover Stories: Handmaid or Feminist?” Time (Monday, December 30, 1991).
55. Ibid.
56. www.webdesk.com/catholic/prayers/litany-of-the-blessed-virgin-mary.html
57. www.clai.org.au/articles/sasse/marypope.htm
58. Ibid.
59. Ludwig Ott (note 12), p. 208.
60. Eamon Duffy, What Catholics Believe About Mary (1989), p. 17.
61. Ludwig Ott (note 12), p. 209 .
62. Ibid.
63. Epiphanius, Panarion Haereses 78.10-11, 23. Cited by Juniper Carol, O.F.M. ed., Mariology (1957), vol. 2, pp. 139-140.
64. Juniper Carol (note 63), vol. 1, p. 150.
65. Karl Rahner, The Mother of Our Lord (1963), p. 16.
66. Pope Gelasius 1, Epistle 42, Migne Series, M.P.L. vol. 59, col. 162.
67. Henry Denzinger (note 31), p. 70.
68. Migne Series, vol. 62. cols. 537-542.
69. Gregory Dix, The Shape of the Liturgy (1947), p. 376.
70. www.religioustolerance.org/mary_cor.htm
71. Ludwig Ott (note 12), p. 211.
72. Ibid., pp. 212-213.
73. Elliot Miller and Kenneth R. Sample (note 42), p. 50.
74. Lumen Gentium 61-62.
75. Catechism of the Catholic Church (note 11), p. 251, paragraph 964.
76. bid., p. 252, paragraph 969.
77. Lumen Gentium #57
78. Insegnamenti di Giovanni Paolo II ( 1982), vol. 1, p. 404.
79. Ibid., vol. 1, p. 318-319.
80. Insegnamenti di Giovanni Paolo II ( 1991), vol. 2, p. 756.
81. Salvifici Doloris #25.
82. L’Osservatore Romano, weekly edition in English, (June 22, 1994), vol. 1347, p. 11.
83. Ludwig Ott (note 12), p. 212.
84. Ibid., p. 213.
85. Ibid., p. 214.
86. Catechism of the Catholic Church (note 11), p. 127, paragraph 501.
87. Mark Mirvalle, Introduction to Mary: The Heart of the Marian Doctrine and Devotion (1993), p. 12.
83. Ludwig Ott (note 12), p. 215.
89. Ibid.
90. Norman Geisler and Ralph E. MacKenzie (note 44), p. 322.
91. Novena Prayers in Honor of Our Mother of Perpetual Help (Sisters of St. Basil, 1968), p. 16.
92. Ibid., p. 19. Emphasis supplied.
93. Alphonsus de Liguori, The Glories of Mary (Redemptionist Fathers, 1931), pp. 169, 180, 137.
 

Estudo de Autoria do já falecido Dr. Samuele Bacchiocchi
Professor jubilado de teologia da Universidade Andrews, publicado através da
Newsletter End Time Issues nr. 192 no site Biblical Perspectives.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

De frente com o inimigo

De frente com o inimigo
Saiba como prevenir, identificar e lidar com a possessão demoníaca

Pr. Emilson dos Reis
*
Um pastor tem muitas alegrias em seu ministério, tais como ver pessoas se convertendo e sendo santificadas na verdade mediante sua influência e liderança e receber o carinho e o reconhecimento de seu rebanho. Mas algumas vezes se depara com situações que podem ser bastante desgastantes e encher seu coração de pesar. Isso ocorre quando precisa comandar a aplicação da disciplina eclesiástica a um membro faltoso; quando é necessário realizar uma cerimônia fúnebre, especialmente se a pessoa era muito amiga e a morte chegou de modo inesperado; e quando deve prestar ajuda a uma pessoa possessa por espíritos maus.

Neste artigo nos propomos a tratar da tarefa de expulsar demônios quando a possessão fica bastante evidente pela grande alteração de comportamento do indivíduo. Esta é, provavelmente, a atividade cristã sobre a qual menos se têm escrito, talvez, por um lado, porque o assunto não seja agradável e, por outro, porque as Escrituras Sagradas não dizem muito a respeito, embora apresentem alguns exemplos. Nossas considerações estão baseadas na Bíblia, nos escritos de Ellen G. White e na experiência pessoal que tivemos ao longo de nosso ministério pastoral. Elas não pretendem esgotar o tema e, sim, ajudar, na prática, aqueles que, porventura, tenham que enfrentar tal situação ao estarem trabalhando para Deus.
Possessão demoníaca x doença mental
Há indivíduos que não crêem que exista tal coisa como um ser humano ser totalmente controlado por agentes satânicos, e que, tais casos deveriam ser classificados como doenças mentais. Se bem que seja verdade que há certas enfermidades com sintomas um tanto semelhantes àqueles apresentados pelos que estão possessos, como a histeria e a epilepsia, não é possível explicar pela medicina ou pela ciência algumas demonstrações, tais como: extraordinária força física e o conhecimento, por vezes minucioso, de fatos secretos.

Nem sempre o possesso é muito falante, revela segredos ou demonstra possuir uma força descomunal, mas, pelo que temos observado, quando alguém está de fato endemoninhado, ele fica extremamente furioso e violento quando Cristo é exaltado, seja na leitura de um texto sagrado, seja numa oração ou no cantar de um hino. Já, quando o indivíduo possui uma doença qualquer que o perturba, ele não reage diante da exaltação de Cristo.
Perfil do possesso
Satanás não pode se apossar de qualquer pessoa que ele queira. Se isso fosse possível nosso mundo teria se tornado, há muito tempo, num gigantesco manicômio. Para que aconteça a possessão é necessário que o indivíduo se entregue a ele, o que comumente é feito pouco a pouco, quando segue suas sugestões para praticar o mal. Assim, um filho de Deus jamais poderá ficar possesso, porque sua vontade foi e permanece rendida a Cristo. “O tentador jamais nos poderá compelir a praticar o mal. Não pode dominar as mentes, a menos que se submetam a seu controle. A vontade tem que consentir, a fé largar sua segurança em Cristo, antes que Satanás possa exercer domínio sobre nós. Mas todo desejo pecaminoso que nutrimos lhe proporciona um palmo de terreno. Todo ponto em que deixamos de satisfazer à norma divina, é uma porta aberta pela qual pode entrar para nos tentar e destruir.”1

Comentando o caso de um endemoninhado com o qual Jesus Se deparou, Ellen G. White declara: “A causa oculta da aflição (...) achava-se em sua própria vida. Fora fascinado pelos prazeres do pecado, e pensara fazer da vida um grande carnaval. (...) Julgou poder gastar o tempo em extravagâncias inocentes. Uma vez no declive, porém, resvalou rapidamente. A intemperança e a frivolidade perverteram-lhe os nobres atributos da natureza, e Satanás tomou sobre ele inteiro domínio. (...) Colocara-se no terreno do inimigo, e Satanás tomara posse de todas as suas faculdades.”2

Algumas vezes é possível nos depararmos até com crianças possessas. Essa foi a experiência do próprio Jesus. Certa feita um pai aproximou-se dEle e disse: “Mestre, trouxe-te o meu filho, possesso de um espírito mudo; e este, onde quer que o apanha, lança-o por terra, e ele espuma, rilha os dentes e vai definhando.” (Mc 9:17 – 18). Jesus, se dispondo a ajudar o menino, disse que o trouxessem. “E trouxeram-lho; quando ele viu a Jesus, o espírito imediatamente o agitou com violência, e, caindo ele por terra, revolvia-se espumando. Perguntou Jesus ao pai do menino: Há quanto tempo isto lhe sucede? Desde a infância, respondeu; e muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o matar; mas, se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos” (vs. 20 – 22).

Julgamos que uma criança é muito inocente para se entregar ao maligno e que, nesses casos de possessão infantil, a causa encontra-se nos pais. Por uma vida iníqua ou por atitudes imprudentes colocam seus filhos sob o poder do maligno. A esse respeito Ellen G. White escreveu:
Não poucos, neste século e nação professamente cristãos, recorrem aos maus espíritos, em vez de confiarem no poder do Deus vivo. Velando ao pé do leito de enfermidade de seu filho a mãe exclama: ‘Não posso fazer nada mais. Não haverá médico que possa restaurar meu filho?’ Contam-lhe as maravilhosas curas realizadas por algum vidente ou operador de curas pelo magnetismo, e ela confia seu querido aos cuidados dele, colocando-o tão certamente nas mãos de Satanás como se ele lhe estivesse ao lado. Em muitos casos, a vida futura da criança é regida por uma força satânica, que parece impossível quebrar3.
Nesses casos de crianças endemoninhadas precisamos trabalhar também com os pais de modo que a causa do mal seja removida pelo poder de Deus.
Autoridade para expulsar demônios
Uma pessoa pode ser possuída por um ou mais demônios. O menino possesso, curado por Jesus, fora controlado por um demônio (Mc 9:25 – 26), Maria Madalena fora possuída por sete (Mc. 16:9), enquanto que outro, o geraseno, fora dominado por uma legião (Lc. 8:30). Além disso, as hostes espirituais do mal estão distribuídas em várias ordens (Ef 6:12; Cl 2:15), de maneira que alguns demônios são mais poderosos do que outros e, por isso, parecem ter maior capacidade de resistência para abandonar sua vítima.

Em Seu ministério Jesus curou muitos endemoninhados (Mt. 8:16), o que era uma forte evidência de ser Ele o Messias tão longamente esperado pelo povo judeu. Isaías, profetizando à respeito dEle escrevera: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu (...), enviou-me para (...) proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is 61:1). Ele fora ungido com o Espírito Santo e com poder e, por isso, possuía autoridade sobre os demônios. Tal autoridade foi compartilhada com seus discípulos quando por ocasião da escolha dos doze Jesus lhes deu autoridade para expelirem demônios (Mt 10:1). O evangelho de Lucas acrescenta que essa autoridade foi “sobre todos os demônios” (Lc. 9:1). Posteriormente, quando de sua ascensão, essa autoridade foi estendida aos demais seguidores, a fim de que a empregassem no cumprimento da missão (Mc. 16: 15-17).

Portanto, temos à nossa disposição todo o recurso necessário para enfrentarmos toda a sorte de anjos maus e alcançarmos a vitória. Por isso, quando formos colocados frente a frente com alguém possesso não há porque temer. Aliás, são os demônios que devem tremer na presença de um filho de Deus, porque “a mais débil alma que permaneça em Cristo é mais que suficiente para competir com o exército das trevas4” e “ao som da fervorosa oração todo o exército de Satanás treme 5.”
Como expulsar os demônios?
É importante sabermos que há graus de possessão. Há pessoas que são mais dominadas do que outras, há pessoas nas quais a manifestação é mais freqüente. Temos observado que alguns têm crises uma vez por semana, outros diariamente, e outros, ainda, várias vezes por dia. Contudo, em nenhum caso o indivíduo fica possesso o tempo todo. Todos os endemoninhados passam por períodos em que há maior lucidez. Comentando o caso de um endemoninhado que apareceu num sábado na sinagoga onde Jesus estava, Ellen G. White declara que
“em presença do Salvador, um raio de luz lhe penetrara as trevas. Foi despertado, e ansiou a libertação do domínio do maligno; mas o demônio resistia ao poder de Cristo. Quando o homem tentou apelar para Cristo em busca de auxílio, o espírito mau pôs-lhe nos lábios as palavras, e ele gritou em angústia de temor. O possesso compreendia em parte achar-se em presença de alguém que o podia libertar; mas, ao tentar chegar ao alcance daquela poderosa mão, outra vontade o segurou; outras palavras encontraram expressão por meio dele. Terrível era o conflito entre o poder de satanás e seu próprio desejo de libertação6.”
Também discorrendo sobre o episódio que resultou na libertação dos endemoninhados gadarenos, um dos quais era dominado por uma legião de anjos maus, ela assevera que Cristo
ordenou com autoridade aos espíritos imundos que saíssem deles. Suas palavras penetraram no espírito entenebrecido dos desventurados. Percebiam, fracamente, estar ali Alguém capaz de salvá-los dos demônios atormentadores. Caíram aos pés do Salvador para O adorar; mas, ao abrirem-se-lhes os lábios para suplicar-Lhe a misericórdia, os demônios falaram por eles. Gritando fortemente: "Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-Te que não me atormentes"7.
Portanto, mesmo o mais possesso dos homens ainda pode perceber quando alguém se dispõe a ajudá-lo e pode desejar ser liberto.

Para que um possesso volte à normalidade é imprescindível que outra pessoa atue como instrumento de libertação nas mãos de Deus. Esta, precisa seguir a recomendação bíblica: “Sujeitai-vos, portanto a Deus; mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4:7). Assim, antes do diabo fugir, é necessário que resistamos a ele, e, antes disso, é preciso que nos submetamos a Deus. A Bíblia nos apresenta o exemplo de pessoas que tentaram expelir demônios sem, contudo, estarem submissas a Deus. O resultado foi um grande fiasco (At 19:13 – 16). Até os discípulos passaram por essa humilhante experiência. Eles, que já haviam expelido muitos demônios, viram frustradas suas tentativas de libertarem um menino possesso. Mais tarde, depois de Cristo haver curado o garoto, eles indagaram ao mestre: “Por que não pudemos nós expulsá-lo? Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração [e jejum]” (Mc 9:28 – 29).

Imediatamente antes desse episódio, Cristo escolhera apenas três discípulos e os levara ao cimo do monte onde, à vista deles, fora transfigurado. Os outros nove haviam permanecido ao pé do monte.
As palavras de Cristo com respeito a Sua morte, haviam produzido tristeza e dúvida. E a escolha dos três discípulos para acompanharem Jesus ao monte excitara os ciúmes dos nove. Em vez de robustecer a fé pela oração e meditação das palavras de Cristo, demoraram-se em seus desânimos e agravos pessoais. Foi nesse estado de sombras que empreenderam o conflito com Satanás8.” “Sua incredulidade, que lhes vedava ter mais profunda simpatia para com Cristo, e a desatenção com que olhavam a sagrada obra a eles confiada, tinham causado o fracasso no conflito com os poderes das trevas9.
Assim, no momento em que os nove foram procurados pelo aflito pai, os discípulos estavam envoltos em trevas, apartados da comunhão com Deus e, por isso haviam fracassado. A oração, num espírito humilde e submisso dar-lhes-ia a vitória.

Quando somos completamente submissos a Deus, estamos em condição de resistir ao Maligno. A única maneira de se fazer isso é apelando para o nome de Jesus. “Torre forte é o nome do Senhor, à qual o justo se acolhe e está seguro” (Pv 18:10). “Satanás treme e foge diante da mais débil alma que se refugia nesse nome poderoso10”.
Satanás não suporta que se apele para seu poderoso rival, pois teme e treme diante de sua força e majestade. Ao som da fervorosa oração todo o exército de Satanás treme. Ele continua a chamar legiões de anjos maus para conseguir seu fim. E quando os anjos todo-poderosos, revestidos com a armadura celeste, chegam em auxílio da fraca e perseguida alma, o inimigo e seus anjos recuam, sabendo muito bem que sua batalha está perdida11.
Temos visto os demônios fugirem quando Jesus é exaltado, seja na oração, seja na leitura da Bíblia, seja no cantar de um hino. Contudo, de acordo com os exemplos bíblicos deve-se repreender os demônios e, em nome de Jesus, ordenar que eles saiam (Lc 4:33 – 36; 8:27 – 29; 9:42; Mc 16:17; At 16:16 – 18). Em alguns casos a pessoa fica liberta instantaneamente, enquanto que, em outros, os demônios relutam em se afastar. Mesmo quando Jesus ordenava que saíssem havia demônios que demoravam-se tentando argumentar e resistir e exibir sua força (Mc 5:6 – 13; 9:25 – 26). Havendo resistência, deve-se perseverar na luta contra as forças do mal até que o último demônio, por mais poderoso que seja, se dê por vencido, o que pode levar algumas horas. Não esqueça que, embora possam resistir por algum tempo, eles sempre acabam saindo.
Quando o demônio vai à igreja
A maior parte das vezes em que um pastor se depara com um endemoninhado parece ser nas reuniões da igreja. Mesmo que o possesso vá à reunião com o sincero desejo de buscar ajuda, as intenções de Satanás, ao permiti-lo ir, são outras. Em Lc 4:31-36 encontra-se o relato de que Cristo estava numa sinagoga, num sábado, ensinando Sua doutrina, e que ali estava também um homem possesso o qual começou a bradar em alta voz. Então, “a atenção do povo se desviou de Cristo, e Suas palavras não foram escutadas. Tal era o desígnio de Satanás em levar a vítima à sinagoga12.”

Sabendo que o objetivo do maligno é desviar a atenção de Cristo e do evangelho para si, não devemos de modo algum permitir que ele tenha êxito. Sugerimos que é melhor que alguns irmãos conduzam o possesso imediatamente para uma das salas contíguas à nave principal da igreja e que ali se proceda ao trabalho de expulsão, enquanto segue a programação da igreja. Essa tarefa de remoção certamente não será fácil nem agradável, todavia, se vários irmãos se unirem, por mais forte e violento que ele possa parecer, será possível. É necessário que, se o possesso estiver agressivo, outros o segurem e que o pastor fique livre para dedicar-se aos aspectos espirituais.
Cuidados especiais
Assim como há espíritos mudos, há os que são muito falantes. Ninguém deve, movido pela curiosidade, fazer perguntas a Satanás e nem dar crédito às suas palavras. Não esqueçamos que elas sempre têm o intuito de confundir, desviar, enfim, levar-nos à perdição. Para tanto ele pode misturar informações verdadeiras com falsas. Algumas vezes o demônio dirige-se a alguém e diz: “você é meu, porque faz isto ou aquilo”. Muito cuidado! Pode ser verdade que o tal comportamento seja errado, pode não ser. Se não for, alguns serão enganados e passarão a pensar que é e discutirão com seus irmãos sobre isso, o que resultará em confusão na igreja. Se, todavia, o que ele disser for correto, poderá haver outro problema. Alguns passarão a evitar o tal procedimento, mas o motivo será porque o Diabo disse e não porque Deus, ou Sua palavra ou Seu servo afirmaram. Somos inclinados a questionar tal tipo de “obediência”.

Comentando a primeira tentação que Jesus enfrentou no deserto, Ellen White escreveu: “Esperava Satanás provocar o Filho de Deus, levando-O a empenhar-Se em controvérsia com ele; e esperava que, assim, em Sua fraqueza extrema e agonia de espírito, alcançasse vantagem sobre Ele. (...) O Salvador do mundo não teve controvérsia com Satanás, que (...) era capaz de qualquer engano13.” Ela também aconselha: “Nossa única segurança é não dar lugar ao diabo; pois suas sugestões e intuitos, são sempre para nos prejudicar e impedir-nos de nos firmar em Deus. (...) Não é seguro entrar em discussão ou parlamentar com ele14.”

Outro cuidado que todos devemos ter é o de pensar e falar mais em Jesus, em seu poder e amor e menos em Satanás.
Há cristãos que falam demais sobre o poder de Satanás. Pensam em seu adversário, oram a seu respeito, falam nele, e ele avulta mais e mais em sua imaginação. É certo que Satanás é um ser poderoso; mas, graças a Deus, temos um forte Salvador, que expulsou do Céu o maligno. Satanás regozija-se quando lhe engrandecemos a força. Por que não falar em Jesus? Por que não exaltar Seu poder e Seu amor15?
Mesmo quando Lúcifer se encontrava em seu estado de pureza junto ao trono do Altíssimo havia um abismo de diferença entre ele e o Filho de Deus. Um era criatura e o outro era Criador. Não há como compará-los em tempo de existência, em sabedoria, em poder. Cristo é infinitamente mais poderoso do que todos os demônios juntos. É compensador estar ao Seu lado. Lembremos sempre disso.
O que fazer depois da libertação?
Cristo ensinou que um indivíduo liberto pode voltar a ficar possesso.
Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos procurando repouso, porém não encontra. Por isso, diz: Voltarei para minha casa donde saí. E, tendo voltado, a encontra vazia, varrida e ornamentada. Então, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro (Mt. 12:43-45).
Tal situação não depende do servo de Deus a quem Ele usou no processo de libertação, mas das escolhas do próprio indivíduo liberto. A garantia para que isso não volte a ocorrer é não deixar a casa vazia, é convidar a Cristo para nela habitar, é efetuar a completa entrega da vida ao domínio de Cristo.

Por essa razão e porque logo após a libertação o indivíduo se encontra extremamente fatigado, física e mentalmente, recomendamos que aquele que expulsou os demônios procure se colocar no lugar da pessoa libertada fazendo uma oração de completa entrega a Deus, que será repetida por ela. Isso deve ser feito imediatamente após a libertação.
Quando a alma se rende inteiramente a Cristo, novo poder toma posse do coração. (...) A alma que se rende a Cristo, torna-se Sua fortaleza, mantida por Ele num revoltoso mundo, e é seu desígnio que nenhuma autoridade seja aí reconhecida senão a Sua. Uma alma assim guardada pelos seres celestes, é inexpugnável aos assaltos de Satanás.16
Maior atividade das forças do mal
Por meio dos escritos de Ellen White somos advertidos de que no grande e prolongado conflito entre o bem e o mal destacam-se dois períodos em que as forças do mal estão em maior atividade: os dias do ministério de Cristo e os dias finais da história humana.
O período do ministério pessoal de Cristo entre os homens foi o tempo de maior atividade das forças do reino das trevas. Durante séculos Satanás e seus anjos haviam estado procurando controlar o corpo e a alma dos homens, para trazer sobre eles pecados e sofrimento; depois acusara a Deus de toda essa miséria. Jesus estava revelando aos homens o caráter de Deus. Estava a despedaçar o poder de Satanás, libertando-lhe os cativos. Nova vida e amor do Céu moviam o coração dos homens, e o príncipe do mal despertou para contender pela supremacia do seu reino. Satanás convocou todas as suas forças, e a cada passo combatia a obra de Cristo. (...) Assim será na grande batalha final do conflito entre a justiça e o pecado. Ao passo que nova vida e luz e poder descem do alto sobre os discípulos de Cristo, uma vida nova está brotando de baixo, e revigorando os instrumentos de Satanás17.
Por isso, enquanto nos aproximamos do fim, podemos esperar maiores e mais freqüentes demonstrações de possessão demoníaca, sabendo, contudo, que nossa vitória é certa pois, “o Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio” (Sl 46:11).
Referências
1 O Desejado de todas as nações, 67.
2 Ibid., 141.
3 Testemunhos seletos, 2: 52 – 53.
4 O Grande conflito, 530.
5 Testemunhos seletos, 1:121.
6 O Desejado de todas as nações, 141.
7 Ibid., 195.
8 Ibid., 252.
9 Ibid.
10 Ibid., 70.
11 Testemunhos seletos, 1:121.
12 O Desejado de todas as nações, 141.
13 Mensagens Escolhidas, 1:278 –279.
14 Testemunhos seletos, 1:410 – 411.
15 O Desejado de todas as nações, 289.
16 Ibid., 186 - 187.
17 Ibid., 142.

*professor de Teologia Aplicada do curso de Teologia do Unasp, Campus Engenheiro Coelho, SP.